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O gêmeo solitário



O gêmeo solitário é uma pessoa que nasceu sozinha, mas foi concebida em uma gravidez gemelar.

A ciência sabe há dez décadas, que ao redor de 10% a 15% das gestações começam como uma gravidez múltipla, O QUE SIGNIFICA QUE PELO MENOS UMA EM CADA DEZ PESSOAS É UM GÊMEO. Mas 90% das gestações gemelares acaba no parto de um só bebê.


A maioria se perde nos três primeiros meses de gravidez sem deixar rasto; na ciência se fala do gêmeo desaparecido. Parece que a natureza sacrifica habitualmente um para assegurar que o outro bebê chegue a um bom parto, ou seja, que nasça.


Agora, as primeiras impressões da nossa vida nos deixam uma marca profunda. E isso não apenas a partir do nosso parto, mas desde a própria concepção. Para uma pessoa que começou a vida acompanhada por um gêmeo que se perdeu ao longo da gravidez, significa que teve duas experiências decisivas: a união com o seu gêmeo, que habitualmente se vive como um estado de plenitude e felicidade, e em seguida a perda deste ser tão querido, presenciando sua morte de muito perto.



Estes fatos deixam marcas em sua vida posterior em maior ou menor medida.

A primeira experiência o marca porque determina seu modo de relacionar-se com outras pessoas. Se sente cômodo em relações próximas e profundas, enquanto as superficiais não lhe interessam e necessita de pouco espaço próprio. Tende a definir-se como nós, com o que se refere habitualmente a seu parceiro.


Temos que entender que a relação mais próxima que se dá entre nós humanos é a que definimos como gêmeos. Em sua vida posterior buscam reproduzir essa experiência com uma pessoa muito próxima, seja com um amigo ou uma amiga, seja com seu parceiro ou parceira, seja com um de seus filhos.


A segunda experiência, a da perda, é frequentemente sua grande ferida. É uma experiência traumática de perder a quem mais ama, sem poder fazer nada. Dai nascem sentimentos de tristeza, desolação, culpa, raiva, solidão, ou a sensação que algo ou alguém falta, o que pode levar a pessoa adulta a uma busca interminável. Se sente incompleto sem entender e sem saber o que lhe falta realmente. Esses sentimentos com os anos se transformam em seus velhos companheiros, que estão presentes em sua vida, sem que entenda o porquê.


Alguns gêmeos tem além do trauma da perda, um trauma existencial, por haver se sentido em perigo de perder também a vida quando morreu seu gêmeo. A sensação é como: não poderia sobreviver a perda de um ser querido. Então põe uma distância de segurança em todas as relações. Qualquer perda lhe causa um luto exagerado, mesmo de um animal de estimação.


De toda forma, têm em comum que em seu inconsciente se identificam tanto consigo mesmos, como com seu gêmeo morto. Sentem por ambos. Em um momento estão cheios de vitalidade e vontade, e no seguinte e sem motivo aparente, se sentem desanimados.


O primeiro passo e o mais importante para poder afirmar-se em sua individualidade é perceber a existência do seu gêmeo.


O trabalho terapêutico e o trabalho das constelações familiares, especialmente, para um gêmeo solitário ao longo desse processo, que pode durar anos, as coisas que no começo estavam confusas e misturadas se aclaram e se ordenam cada vez mais, tanto no nível emocional como no cognitivo. Ao saber ele se entende melhor e é capaz de diferenciar que peça do quebra-cabeça pertence a cada lugar.


Em seu caminho de integração, passa a sentir-se mais inteiro e livre para viver sua própria vida, e vivê-la o mais feliz possível. E, finalmente, chega o momento que se esquece dessa parte da sua história.


Do livro "Filosofia, pensamento e prática das constelações sistêmicas".


Editora Conexão Sistêmica, 2015.

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