A Terceira Ordem do Amor: O equilibrio entre o Dar e o Receber
- 12 de set. de 2025
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A ordem de dar e receber nos é determinada por meio de nossa consciência. Quando tomamos ou recebemos alguma coisa de alguém, sentimo-nos obrigados a compensá-lo de maneira correspondente. Somente depois que fazemos isso é que nos sentimos livres novamente. A dependência deixa de existir, e ambos podem seguir seu caminho. Porém, quando a restituição é insuficiente, a relação continua a existir em duplo sentido: o primeiro beneficiário sente-se em dívida com o segundo, que, por sua vez, ainda espera algo dele.

Porém, a compensação ocorre não apenas no bem, mas também no mal. Curiosamente, ambos os lados contam com ela, e não apenas a vítima, que planeja vingança. O culpado quer se livrar de sua culpa expiando-a. Mas o que acontece quando a vítima lhe faz algo pior? O culpado sente que ela foi longe demais, pensa em vingar-se e, por sua vez, retribui-lhe com algo ainda pior. Assim, a compensação vai se agravando.
Algo diferente ocorre no relacionamento de um casal, pois além da necessidade de compensação, nesse caso o amor desempenha um papel. Isso significa que quando recebo algo de alguém que amo, restituo-lhe mais do que o equivalente. Assim, o outro se sente novamente em dívida comigo e me restitui um pouco mais. Surge um movimento crescente positivo, e o relacionamento ganha profundidade e amor.

Contudo, ocorre uma desordem quando sempre dou mais ao outro do que ele pode restituir. Desse modo, a relação perde seu equilíbrio. Como consequência, aquele que recebeu em excesso se aborrece e deixa a relação com desculpas esfarrapadas.
A compensação no campo do mal também é necessária no relacionamento de um casal. Quem sempre perdoa o parceiro por uma ação ruim, sem compensação, ameaça o relacionamento. Mais do que isso: intimamente, quer se livrar do outro sem ter consciência disso. O outro já não se sente em pé de igualdade, mas inferior. Qual seria a boa solução? Aquele que sofreu um mal vinga-se com amor, ou seja, restitui com algo menos ruim. Como não quer perder o outro, é menos malvado. De repente, o outro se surpreende. Ambos se olham e se lembram de seu antigo amor. Assim, o círculo vicioso é rompido por violações cada vez mais recíprocas. Essa compensação tem outra vantagem: graças a ela, ambos se tornaram mais cuidadosos e lidam com o outro de maneira mais cautelosa. O resultado dessa compensação é o aprofundamento do amor deles.
Apenas na relação entre pais e filhos a compensação entre dar e receber é anulada. Os filhos não podem compensar o que os pais lhes dão. Realizam essa compensação mais tarde, dando a seus próprios filhos. Porém, pode acontecer de um dos pais sobrecarregar o filho com coisas materiais.

A ordem de dar e receber na família é invertida quando quem vem depois, em vez de receber de quem veio antes e honrá-lo por isso, quer dar lhe algo, como se fosse igual ou até superior a ele. Isso ocorre, por exemplo, quando os pais recebem dos filhos e estes querem dar aos pais o que estes não recebem de seus pais ou de seu parceiro. Nesse caso, os pais querem receber como filhos, e os filhos querem dar como pais. Em vez de fluir de cima para baixo, o dar e receber flui de baixo para cima, contra a força da gravidade. Contudo, esse dar vem como um riacho que quer correr montanha acima, em vez de montanha abaixo, escolhendo seu próprio destino. Uma exceção é quando os filhos cuidam dos pais na velhice. Nesse caso, são os filhos que dão aos pais e, com razão, estes exigem e recebem de seus filhos. Isso porque pais e filhos formam uma comunidade de destino, na qual cada um deve contribuir de acordo com seu patrimônio para o bem estar comum. Nela todos dão e todos recebem.
Entretanto, quando um filho infringe a prioridade do ato de dar e receber, é fortemente penalizado, em geral com o fracasso e a ruína, sem que tenha noção da culpa e do contexto. Quando ele dá ou recebe o que não lhe diz respeito, viola a ordem do amor. Não percebe essa usurpação e acha que está tudo bem. No entanto, a ordem não pode ser superada pelo amor, pois antes de todo amor, atua na alma um senso de equilíbrio que ajuda a ordem do amor a alcançar a justiça e a compensação mesmo à custa da felicidade e da vida. Por isso, a luta do amor contra a ordem também é o início e o fim de toda tragédia, e só há um meio de escapar: conhecer a ordem e segui-la com amor. Conhecer a ordem é sabedoria, e segui-la com amor é humildade.
BERT HELLINGER - MEU TRABALHO. MINHA VIDA. Ed. Cultrix
Hellinger, Bert, 1925-2019 Bert Hellinger : Meu trabalho. Minha vida. A autobiografia do criador da Constelação Familiar / com Hanne-Lore Heilmann ; tradução Karina Jannini. -- São Paulo : Cultrix, 2020




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