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O centro

  • 9 de fev.
  • 2 min de leitura

Alguém se decide afinal a saber. Monta em sua bicicleta, pedala para o campo aberto, afastando-se do caminho habitual e seguindo por outra trilha.


Como não existe sinalização, ele tem de confiar apenas no que vê com os próprios olhos diante de si e no que mede com seu avanço. O que o impulsiona é, antes de tudo, a alegria de descobrir. E o que para ele era mais um pressentimento, agora se transforma em certeza.

Eis, porém, que o caminho termina, diante de um largo rio. Ele desce da bicicleta. Sabe que, se quiser avançar, deverá deixar na margem tudo o que leva consigo. Perderá o solo firme, será carregado e impulsionado por uma força que pode mais do que ele, à qual precisará entregar-se. Por isso hesita e recua.

Pedalando de volta para casa, dá-se conta de que pouco conhece do que poderia ajudar e dificilmente conseguirá comunicá-lo a outros. Já tinha vivido, por várias vezes, a situação de alguém que corre atrás de outro ciclista para avisá-lo de que o para-lama está solto: “Ei, você aí, o seu para-lama está batendo!” — “O quê?” — “O seu para-lama está batendo!” — “Não consigo entender”, responde o outro, “o meu para-lama está batendo!”


“Alguma coisa deu errado aqui”, pensa ele. Pisa no freio e dá meia-volta.

Pouco depois, encontra um velho mestre e pergunta-lhe: “Como é que você consegue ajudar outras pessoas? Elas costumam procurá-lo, para pedir-lhe conselho em assuntos que você mal conhece. Não obstante, sentem-se melhor depois.”


O mestre lhe responde: “Quando alguém para no caminho e não quer avançar, o problema não está no saber. Ele busca segurança quando é preciso coragem e quer liberdade quando o certo não lhe deixa escolha. Assim, fica dando voltas.

O mestre, porém, não cede ao pretexto e à aparência. Busca o próprio centro e, recolhido nele, espera por uma palavra eficaz, como quem abre as velas e aguarda pelo vento. Quando a outra pessoa chega, encontra-o no mesmo lugar onde ela própria deve ir, e a resposta vale para ambos. Ambos são ouvintes.”

E o mestre acrescenta: “No centro sentimos leveza.”

HELLINGER, Bert. O essencial que conta. Organização de Bernard Munsch. Tradução não identificada. [S.l.]: Hellinger sciencia®, 2017, s.p.

A pura verdade nos parece clara mas, como a lua cheia, esconde um lado obscuro.Porque brilha, ela ofusca. Assim, quanto mais tentamos agarrar ou fazer valer a face que nos mostra, tanto mais inapreensível sua face oculta se furta secretamente aos nossos conceitos.

HELLINGER, Bert. No centro sentimos leveza. Tradução de Newton de Araujo Queiroz. São Paulo: Cultrix, 2004, p. 75.

 
 
 

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